Quarta-feira, 16 de Maio de 2018 - 14h41 - Atualizado em: Quarta-feira, 16 de Maio de 2018
​Arqueólogos procuram relíquias de 11 mil anos no Oeste
Escavação é minuciosa para não danificar objetos encontrados no solo, como facas, pontas de flechas e ossos
Foto: ANGÉLICA LÜERSEN / Especial

Pesquisadores de cinco países – França, Rússia, Itália, Canadá e Brasil – tentam desvendar a pré-história em Santa Catarina em escavações nas margens do Rio Uruguai, próximo à barragem da hidrelétrica Foz do Chapecó, entre Águas de Chapecó e Alpestre (RS).

Eles estão escavando nos dois lados da margem, mas no lado catarinense está o sítio mais antigo do Estado, com 11,7 mil anos.

– Esses são sítios bem importantes, pois temos basicamente toda a sequência da pré-história regional, que vai desde os grupos mais recentes que viveram 500 anos atrás até os grupos que viveram aqui em torno de 11 mil, 10 mil anos atrás – afirma a doutora em arqueologia e coordenadora do Centro de Memória do Oeste de Santa Catarina (Ceom).

A escavação faz parte do projeto Povoamentos Pré-históricos do Alto Rio Uruguai, iniciado em 2013 com recursos do Ministério das Relações Exteriores da França.

A partir de 2014, começaram as expedições internacionais. Durante um mês, os arqueólogos ficam instalados numa estação de piscicultura do Instituto Goio-Ên, também ligado à Unochapecó, que fica ao lado da barragem, em Águas de Chapecó.

Neste ano, os trabalhos começaram no último dia 30 e vão até 25 de maio. A escavação é bem cuidadosa para não danificar materiais como ossos, carvão, cerâmicas e pontas de flecha, entre outros. Além disso, antes de retirar a peça, é mapeada a disposição dos itens, com a colocação de alfinetes coloridos para posterior anotação em papel.

De acordo com o professor do Museu de História Natural de Paris, Antoine Lourdeau, é importante anotar a disposição dos objetos para entender a organização e o contexto da população que passou pelo local.

– Aqui onde estamos escavando encontramos as ferramentas de pedra, que eram o objetivo da produção, e também as lascas que correspondem ao resíduo da produção. Cada uma dessas categorias de objetos dá uma informação. Além disso, esse sítio de 10 mil anos tem uma tecnologia diferente da que era utilizada em níveis mais antigos. Com 11,7 mil anos, a gente já sabia que tinha gente aqui. Mas podemos ter sítios mais antigos – afirma.

Características inéditas para a região sul do país

Conforme o pesquisador Marcos César Pereira dos Santos, que concluiu doutorado em Arqueologia na Universidade de Ferrara, na Itália, com tese sobre a arqueologia no Alto Rio Uruguai, chamam a atenção as lascas de pedra compridas utilizadas pelos povos que habitaram a região:

– É uma tecnologia muito específica, de lâminas feitas com pedras alongadas, como se fossem facas, que eram retocadas para serem utilizadas como diferentes instrumentos, seja para cortar, para furar e para raspar. Essa é uma característica inédita para o Sul do Brasil – aponta Santos.

Além dessas lascas, a atual escavação encontrou também outros tipos de pedra que eram utilizadas como um martelo, para retirar essas lascas.

Heranças de distintas épocas no mesmo sítio

Outro aspecto ressaltado por Marcos dos Santos é que nas margens do Rio Uruguai, do lado gaúcho, foram encontrados seis níveis de ocupação num único sítio arqueológico.

– Pela primeira vez, a gente tem a sobreposição de níveis arqueológicos com um mais antigo, entre 10,5 mil e 9,5 mil anos, depois uma ocupação há 8,5 mil anos, depois um lapso e uma reocupação com 5,5 mil anos, depois uma com 4,5 mil, uma com 3 mil e a chegada dos ceramistas 500 anos antes do presente – destaca.

Povos eram atraídos pelo curso das águas

O Rio Uruguai funcionava como um coletor de águas e também de levas humanas.

A presença de povoamentos distintos é observada nas diferentes camadas de terra. A doutora Miriam Carbonera explica que as manchas mais escuras são o indicativo de uma ocupação, nas quais existem restos de fogueiras e material orgânico que foi depositado.

Os pesquisadores também encontraram pedaços de cerâmica Guarani, pontas de flecha, carvão e até ossos. Todo o material passa por limpeza e é levado para o acervo do Ceom, onde é catalogado e ficará disponível para pesquisa.

– A gente tem uma ideia geral de quais eram os grupos e em que período eles viveram. Agora, o objetivo das escavações é poder detalhar cada uma dessas sequências. Nesse período de 12 mil anos a 8 mil anos, não eram um grupo homogêneo que ficava fazendo as mesmas coisas. O objetivo é perceber as mudanças culturais. Temos também um lapso temporal de 6 mil anos a 3 mil anos e queremos entender melhor essa faixa e, por fim, entender as ocupações Guarani – explica Carbonera.

O levantamento começou por outro motivo: inicialmente a pesquisa no local levantava informações para instalação da hidrelétrica, que iniciou o canteiro de obras em 2006 e começou a operar em 2010, trazendo grande impacto para a região. Hoje, lado a lado, convivem toneladas de concreto da hidrelétrica com a tecnologia milenar da pedra lascada.


Fonte: Diário Catarinense


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